sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O preconceito com quem não crê em Deus

por Juan Meloni para O Popular, de Goiás

Imagine a cena: um mendigo pede esmola no semáforo e recebe o dinheiro de uma pessoa. O pedinte agradece dizendo “Graças a Deus”!. “Obrigado, mas sou ateu”, responde o doador. Sem pestanejar, o mendigo devolve o donativo, deixando seu ofertante atônito. O episódio pode parecer insólito, mas é um exemplo de situações constrangedoras vividas por aqueles que se assumem ateus.

Segundo uma pesquisa de 2008 da Fundação Perseu Abramo, esse grupo desperta repulsa e ódio em 17% da população e antipatia em 25%. Ou seja, 42% dos brasileiros tem aversão a ateus. No Nordeste, esse índice chega a 51%. Já uma pesquisa encomendada ao CNT/Sensus, a pedido da revistaVeja em 2007, mostrou que 59% dos brasileiros não votariam em um ateu.

“Pessoas são abandonadas pelo cônjuge por se declararem ateias. Algumas não são contratadas por causa do ateísmo, outras são despedidas. Há casos até de agressão dentro de casa, como um garoto de 12 anos do Paraná que se recusava a fazer o sinal da cruz e o pai o agredia com a ajuda da mãe. Sei que logo depois disso tiraram o acesso à internet dele”, diz o presidente da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (Atea), o engenheiro civil Daniel Sottomaior, 41 anos.



Foi com o intuito de combater este preconceito que a associação foi criada em 2008. Com 7 mil membros, 200 mil fãs no Facebook e 8 mil no Twitter, a Atea tem foco no ativismo, interesse na laicidade do Estado e respeito a quem não acredita em divindades. A página da associação na internet divulga casos de preconceito, mas a associação tem tido dificuldade em levar as denúncias à frente principalmente por causa do medo e do sentimento de culpa das vítimas. “Temos que estimular as pessoas”, afirma o presidente que recebe entre cinco e dez denúncias por mês.

De acordo com o censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Brasil existem 15.335.510 de pessoas, das quais 486.914 são goianas. Entretanto, os números são incertos, já que o IBGE não utiliza o termo “ateu”, mas sim “pessoas sem religião”, o que inclui os agnósticos, aqueles que têm dúvidas sobre a existência de Deus.

Para a professora mestre da Universidade Federal de Goiás (UFG), Gisele Toassa, 34 anos, há uma repressão muito forte por parte da sociedade contra aqueles que se assumem ateus. “Esse é um termo pejorativo inventado pela Igreja, que foi atribuído a pessoas que não acreditam em Deus”, critica. Nascida em uma família católica, ela conta que foi na faculdade que suas concepções começaram a mudar. “Foi vital à minha formação. Na instituição, tive acesso a outros grupos, ao conhecimento da ciência que me fez negar a existência de Deus”.

A professora conta que já sofreu discriminação, mas que aprendeu um método eficaz e hoje não sofre mais. “Eu mostro as contradições, devolvo as perguntas porque eu conheço muito bem a Bíblia, e por isso mesmo eu a nego. Não faço uma crítica tola, mas sim fundamentada.”

O historiador Clovis Matos, de 57 anos, lembra que os pais não viram com bons olhos o seu afastamento da Igreja. “Por eles serem católicos cheguei a fazer primeira comunhão, mas desde aí já não tinha convicção da presença de Deus. Não se trata de acreditar ou não, é saber que esta figura tão idolatrada não existe”, enfatiza.

No Brasil, o ensino religioso faz parte do currículo de escolas públicas e particulares. Para o cirurgião dentista José Augusto Milhomem da Mota, 48 anos, essa prática é inconstitucional, já que o Estado se diz laico. “Não tenho nada contra a religião, desde que ela fique no seu domínio. A pessoa deve escolher uma quando tiver entendimento para tal, e não goela abaixo. Estão querendo fazer lavagem cerebral com as crianças”.

O historiador Clovis Matos enxerga essa prática com mais severidade. “Vejo-a de forma mais ditatorial possível, já que a religião é uma escolha e não uma disciplina escolar. Não a aceito nem em escolas comandadas por religiosos. Nem todos que estudam nestas escolas estão ali procurando Deus e sim conhecimentos gerais”, reflete.

Daniel Sottomaior acha que a religião deveria ser escolhida pelas pessoas depois de uma idade mínima. “A religião deveria ser como a bebida alcóolica, liberado só na maioridade, depois dos 18 anos, quando a pessoa já tem um senso mais crítico”. Ele também encara com extremo rigor a influência dos pais neste processo. “Os pais doutrinam as crianças. Não existe criança religiosa, assim como não existe criança marxista. Ela sofre um estupro intelectual, é uma vítima que não tem como se defender, não sabe o que é certo ou o que é errado”.

Muitos devem se perguntar em que os ateus e agnósticos acreditam, já que não há Deus para eles. “Acreditamos na natureza com base na vida e não em Deus. A ideia de que o universo foi criado é uma ideia religiosa”, responde Gisele Toassa. O historiador Clovis Matos faz coro com a professora. “Os maiores cientistas do mundo ainda não conseguiram provar o início de tudo. Nem vão”.

Para Milhomem da Mota, a ciência é o principal referencial. “Existe a teoria do Big Bang para o início do universo e a de Charles Darwin para a evolução das espécies. O bom da ciência é que se você provar que tudo isto está errado, não haverá nenhum problema em mudar de opinião. O que não é possível é estruturarmos toda uma sociedade, em cima de uma coisa (Deus/religião) que não tem a menor base cientifica”, conclui.

3 comentários:

  1. Informo que um comentário enviado por um leitor de nome Luiz foi recusado pois me soou proselitista. Basicamente o leitor fazia, de forma amêna, uma defesa de uma teocracia moderada, digamos assim.

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  2. Parabéns pelo Blog, li apenas alguns posts e já percebo que não é um espaço cheio de tolices, igual a tantos que se vêem na rede.
    Concordo plenamente com a denúncia de intolerância praticada por grande parte das entidades religiosas e seus adeptos. Não sou contra nenhum tipo de religiosidade, porém tenho grandes reservas quanto a extremistas que não respeitam nada, e acima de tudo contradizem suas próprias doutrinas.

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  3. Alguns ateus levam sua crença tão a ferro e fogo com um fervor não menos q religioso... Não fica devendo nada a um fundamentalista.
    levar ao pé da letra essa crença na ciência e na sua "infalibilidade" no fim das contas não seria a "religião" dessas pessoas? No fim das contas todos se parecem ter q se prender a algo, seja lá o q for...

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