terça-feira, 22 de outubro de 2013

Estrangeirismos inundam o cotidiano brasileiro, com direito à Estátua da Liberdade

Por Giovanni Lorenzon para Voz da Rússia.


Se uma loja quer fazer sale, dando algum off nos preços antes de close o dia, o problema é do proprietário. Melhor ainda se for em qualquer país de língua inglesa. No Brasil, soaria mais normal ela fazer promoção e dar um desconto antes de fechar o dia. Mas a moda antiga de tentar dar mais requinte através dos estrangeirismos já merece uma espécie de dicionário de usos e costumes.


Quem não entende literalmente, vai por analogia. Um school bus estampado na lataria de um ônibus, claro, é um ônibus escolar. Já diante de uma placa anunciando hot dog ninguém precisa fazer mais inferências mentais, pois virou mesmo sinônimo de pão com salsicha e não importa muito se a tradução é cachorro-quente. Diga-se de passagem: em qualquer parte do mundo.

O perigo no Brasil é alguém convidar um americano ou inglês para comer o já corriqueiro dog. Poderão pensar que no País há o mesmo hábito alimentar da China.

A inundação de estrangeirismos continua a surpreender. Saiu do campo linguístico e ficou mais concreto, literalmente por assim dizer. Meio sem ser muito notada, a rede varejista Havan vinha erguendo seus pontos de venda com uma fachada construída à semelhança da Casa Branca.

Como se fosse pouco, em frente a cada loja os donos também levantam uma réplica da Estátua da Liberdade, de cor verde, em tamanho que pode chegar até 35 metros em algumas das 56 unidades. Uma coisa medonha de se ver, mais ainda pelo pouco (ou quase nada) que o ícone representa para o brasileiro.

Em uma delas, em Santa Catarina, há até um mirante na cabeça desse monumento ao mal gosto para quem quer apreciar a paisagem, com direito a fila nos finais de semana.

Num primeiro momento, o desavisado imaginava, ao ver aquele conjunto arquitetônico, que a empresa é uma multinacional americana, no que poderia ser considerado normal o uso ostensivo da logomarca que reflete dois dos maiores símbolos do país – a sede presidencial e o monumento de Nova York.

Mas agora ficou claro. Desde que a empresa chegou a Bauru, interior de São Paulo, gerando protestos – embora não pelo grotesco, porém pelo antiamericanismo – que se ficou sabendo, nacionalmente, que a rede é brasileira, sediada na cidade catarinense de Brusque.

E que seu dono adora a cultura americana no que ela representa de liberdade e de atrações consumistas, o que não esconde nas entrevistas, inclusive para o New York Times recentemente.

Ah, sim, a loja faz sale, oferece off e não close nenhum dia da semana.

Luciano Hang pode fazer o que bem entender com sua Havan, naturalmente. Como qualquer restaurante que oferece café da manhã por breakfast e apresenta as opções em um menu – que em casos mais extremos acaba levando um acento no ‘ú’, como uma prosaica palavra oxítona em português, de tão poderosa que a expressão francesa ficou. Nesse caso, uma afronta muito maior para os exigentes franceses do que para os nacionais do Brasil.

No Ceará ninguém tomou como afronta os nomes estrangeiros très chic que surgiram em licitação aberta em agosto para abastecer a cozinha da residência oficial do governador Cid Gomes. Estava-se adquirindo um buffet, com 15 chefs e, entre muitas iguarias delicadas e especiais, os concorrentes deveriam apresentar cotações para escargot na manteiga de alho (não seria patê?) para ser servido em pequenas tarteletes.

Um luxo só o regabofe, no valor de R$ 3,4 milhões, o que causou a ira de muita gente. Pelo menos assim. Afinal, contratar um bufê com tantos caras comandando (ou chefes de) cozinha para servir caracóis em pequenas tortinhas, é demais mesmo, não importa a língua.

O exagero no uso de estrangeirismos, mais notoriamente de anglicanismos do que expressões de outras origens, em alguns casos pode ser justificado, com alguma dose de boa vontade.

Às vezes pela ausência de sinônimos que façam sentido, outras por conta de palavras que acabaram sendo consagradas mundialmente ou igualmente por força de expressões idiomáticas que representam uma ideia ou conceito que em português se precisaria de quase uma frase inteira.

No jornalismo econômico, por exemplo, é muito comum – e este que aqui escreve é réu confesso. A diferença é que há uma seletividade do público destinatário, o que também pode ser um argumento duvidoso.

O que cansa é o uso indiscriminado no cotidiano, incorporado em qualquer coisa, como se a população fosse absolutamente familiarizada com outro idioma. Mais ou menos como é na África do Sul, onde o bantu e o inglês são oficiais. Ou no Paraguai, onde ricos e pobres falam guarani e espanhol.

Nada a ver com servilismo ou subserviência a outras culturas, como bem gostariam de apontar as patrulhas político-ideológicas.

É que é feio mesmo. E démodé, sorry.

Um comentário:

  1. Concordo totalmente, Clark...
    Não há motivo para tantos anglicismos, exceto subserviencia cultural. Nossa língua tem palavras suficientes

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