domingo, 7 de outubro de 2012

Escola pública do ES cospe na Constituição ao desprezar o Estado laico com projeto "Bíblia sagrada"

Por Paulo Lopes para o blog Paulopes

Em vez de ensinar os alunos a respeitarem a Constituição, a escola pública de primeiro grau Monteiro da Silva, de Mimoso do Sul, transgride-a com a adoção do projeto “Bíblia Sagrada”, em atividades que incluíram proselitismo de pastores de diversas igrejas. Com cerca de 26 mil habitantes, a cidade fica no extremo sul do Espírito Santo. O prefeito é Ângelo Guarçoni Júnior (PMDB).

A escola passou por cima do artigo 19 da Constituição, que veta o envolvimento direta ou indiretamente de qualquer instância do Estado brasileiro com crenças religiosas.

O Mimoso Online informou que o projeto foi realizado na semana passada, havendo durante o horário das aulas, no salão da escola, louvores, pregação da palavra de Deus e teatro bíblico.


O site destacou que o projeto foi uma iniciativa da diretora Elizabeth Astolpho para incutir nas crianças o “habito de se buscar a Deus, algo que é indispensável para formação de um bom cidadão”.

Além de inconstitucional, o projeto é equivocado porque não há nenhuma garantia de que a leitura da Bíblia seja essencial para cultivar virtudes nas pessoas. Na verdade, a história está repleta de conflitos desencadeados por razões religiosas, com base em livros sagrados, como o dos cristãos.

A professora Roseli Fischmann, coordenadora de pós-graduação da Universidade Metodista de São Paulo, escreveu um artigo no ano passado ressaltando que, “na escola, o respeito aos outros não pode ser amparado em divindade, mesmo para quem creia”.

E por quê? "Porque amparar-se no inefável para garantir a não violência é menosprezar a capacidade humana de respeito mútuo e a própria fé, que não depende de constrangimento e submissão. A escola pública deve explicitar o que é humano (como a ciência) como mutável, porque falível e passível de debate e discussão, sempre sujeito a aperfeiçoamento, como a Constituição.”

Além da Bíblia, Elizabeth Astolpho, entre tantas outras diretoras de escola no país, deveria ler os artigos da Fischmann e tentar entendê-los. Ela estaria prestando um grande serviço ao cumprimento da Constituição e à formação do senso crítico dos estudantes.

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